Francisquinha Laranjeira Carvalho*
O Colégio Estadual de Araguacema guarda uma memória muito rica e simbólica. Durante o período em que esteve sob a administração das Irmãs Franciscanas de Allegany, a instituição se transformou em um verdadeiro espaço de disciplina, tradição e cultura.
Os rigores das vestimentas e dos uniformes refletiam não apenas a seriedade da formação, mas também a identidade coletiva que se construía entre os alunos. Os desfiles escolares, carregados de representações históricas, eram momentos de afirmação da memória nacional e regional, em que cada detalhe reforçava o sentimento de pertencimento.
As festas juninas, por sua vez, revelavam o lado festivo e comunitário da escola. Com riqueza ornamental caipira, uniam religiosidade, cultura popular e criatividade de estudantes e professores, transformando o espaço escolar em palco de celebração e convivência.
Cada estudante que conheceu as Irmãs Franciscanas guarda consigo lembranças que moldaram personalidades e valores. Foram experiências que ensinaram o amor pela pátria, pela cidade, pelo rio, pela história que nos antecede e, sobretudo, o respeito aos mais velhos.
Eu mesma sou muito feliz e realizada por ter sido estudante do Colégio Estadual de Araguacema nesse período. Guardo boas lembranças na minha memória e acredito que a saída delas foi uma grande perda para os moradores locais. Sua ausência deixou uma lacuna não apenas na vida escolar, mas também na vida comunitária, pois elas representavam disciplina, fé e compromisso com a formação integral dos jovens.
Provavelmente, o que me estimulou a ser mestre em História Cultural e a me dedicar às pesquisas sobre os povos ribeirinhos foi este amor despertado pelas Irmãs Franciscanas. Elas incentivavam os estudantes a escrever redações sobre os lugares, sobre o rio, sobre a cidade e sobre a própria história que nos cercava. Esse exercício simples, mas profundo, nos ensinava a olhar para o cotidiano com olhos de pesquisador e a valorizar aquilo que muitas vezes passa despercebido.
Foi assim que aprendemos a reconhecer a riqueza cultural das comunidades ribeirinhas, a importância das tradições locais e o papel da memória coletiva na construção da identidade de um povo. O legado não se resume à disciplina escolar ou às festas juninas ornamentadas. Ele se estende ao estímulo intelectual e afetivo que moldou gerações.
Esse conjunto de práticas e valores mostra que o Colégio Estadual de Araguacema foi muito mais do que um lugar de ensino. Foi um centro de preservação da memória coletiva, onde disciplina e tradição se encontraram com cultura e alegria. Preservar essa história é garantir que o legado das irmãs franciscanas continue a inspirar novas gerações e que a memória coletiva da cidade permaneça viva.
*Escritora. Especialista em Patrimônio Histórico e Cultural. Mestre em História Cultural. Foi estudante do Colégio Estadual de Araguacema-TO.
Obras publicadas: 1. Fronteiras e Conquistas pelo Araguaia – século XIX; 2. Nas águas do Araguaia – a navegação e a hibridez cultural; 3. Taquaruçu – Editora Kelpes, Produtora e Gestora do Arquivo Documental do Araguaia através do site www.aradocdigital.com.br (arquivo digital de fontes documentais do Araguaia)
