Por Irmã Liliane Araújo*
Esta é uma imagem que sempre me ajuda a rezar. Ao contemplá-la, meu coração se volta para São Francisco de Assis, aquele que a tradição cristã chamou de “outro Cristo”, não apenas por seu radical desapego às coisas deste mundo, mas, sobretudo, pela intensidade de seu amor a Deus, manifestado no cuidado e na fraternidade para com toda a criação.
Francisco escolheu Maria como Rainha e Padroeira da Ordem. Maria, a Imaculada, aquela que, pela graça de Deus, foi preservada de toda mancha do pecado e que, como mulher corajosa, esmaga a serpente sob seus pés. Não por que era a melhor, mas pela ação daquele que nela realizou maravilhas desde o princípio.
A seus pés encontram-se dois grandes santos: o próprio Francisco, o pobrezinho de Assis, que tudo abandonou para seguir o Cristo pobre e crucificado; e Santa Isabel da Hungria, a rainha que trocou os privilégios da corte pelo serviço aos necessitados, reconhecendo em Jesus o mais perfeito modelo de realeza: a realeza do amor que se doa, serve e se faz presença junto aos que sofrem.
Contemplar essa imagem me remete aos momentos da vida em que somos convidados a admitir nossa fragilidade, nossa vulnerabilidade, somos convidados a nos colocar como Francisco e Isabel, em atitude de humildade diante de Deus. Não uma humildade que diminui ou enfraquece, mas aquela que abre espaço. Espaço de transformação, espaço de encontro com o que há de mais verdadeiro e belo em nós. Para que jamais nos esqueçamos que somos criados à imagem e semelhança de um Deus-amor, um Deus-misericórdia, um Deus-compaixão.
Nos últimos anos de sua vida, já marcado pela enfermidade e pela fragilidade do corpo, Francisco compôs um dos mais belos poemas da espiritualidade cristã: o Cântico das Criaturas, também conhecido como Cântico do Irmão Sol. Nele, expressou a profunda sabedoria que havia amadurecido em sua alma ao longo de uma vida inteiramente entregue a Deus. Chamou todas as criaturas de irmãs e irmãos, reconhecendo nelas o reflexo da bondade do Criador, e chegou até mesmo a acolher aquela que tantos temem, chamando-a de irmã: “Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã a morte corporal, da qual nenhum vivente pode escapar.”
Francisco compreendeu que a morte não é a última palavra sobre a existência humana. Para aqueles que vivem em Deus, ela não representa um fim, mas uma passagem; não uma derrota, mas um retorno. É a travessia para a plenitude da vida, para o encontro definitivo com Aquele que nos criou por amor e para o amor.
Talvez seja por isso que esta imagem me toque tanto. Ela me recorda que a verdadeira grandeza não está no poder, na riqueza ou no reconhecimento, mas na capacidade de amar, na capacidade de partilhar, na capacidade de se doar. Me lembra que a humildade abre caminhos para a graça, que toda criatura carrega em si um reflexo do Criador e que, mesmo diante da fragilidade e da morte, podemos viver sustentados pela esperança. A esperança daqueles que sabem que sua origem e seu destino repousam no coração misericordioso de Deus.

*Irmã Liliane Araújo é Conselheira Congregação das Irmãs Franciscanas de Allegany e reside atualmente em Allegany, Nova York (Estados Unidos).

