A natureza confia no processo. Cada estação possui seu propósito, sua beleza e algo a ensinar. Essa foi a reflexão central do terceiro dia do retiro online “Um jubileu que se cumpre: do Transitus à nova vida”, conduzido por Frei Michael Reyes, OFM, e que reúne irmãs e associados dos Estados Unidos, Brasil, Jamaica, Bolívia, Moçambique e demais regiões onde a Congregação das Irmãs Franciscanas de Allegany está presente.
Ao abordar a temática da Sacralidade da Terra, Frei Michael convidou os participantes a contemplarem a criação não apenas como cenário da existência humana, mas como expressão da presença de Deus e mestra de sabedoria espiritual. Inspirado no Cântico das Criaturas, o frade recordou que “a natureza revela uma profunda confiança nos processos da vida”.
“Antes das flores e dos frutos, as raízes crescem primeiro”, recordou das palavras de sua mãe. A partir dessa imagem, ele comparou a trajetória da Congregação das Irmãs Franciscanas de Allegany ao crescimento silencioso das raízes que, ao longo dos anos, sustentaram frutos de fé, compaixão, serviço e alegria franciscana em diferentes partes do mundo. “O crescimento mais profundo acontece debaixo da superfície. Deus vê as raízes e reconhece a confiança”, afirmou.
A reflexão também retomou a experiência de São Francisco de Assis, que escreveu o Cântico das Criaturas em meio ao sofrimento físico e às limitações da doença. Para Frei Michael, o santo não enxergava a criação como algo externo ou utilitário, mas como família: irmã água, irmã mãe terra, irmão sol. “Família não é algo descartável. Família é sagrada”, lembrou.
Segundo o religioso, a humanidade vive uma crise de pertencimento. “Nos tornamos muito bons em usar as coisas, mas nem sempre somos bons em pertencer. São Francisco nos recorda que o pertencimento vem antes do uso; a relação vem antes da posse”, enfatizou.
Ao contemplar os ciclos da natureza, Frei Michael destacou que cada estação possui um papel essencial. A primavera representa os novos começos; o verão, a fecundidade e a colheita; o outono, o tempo das transições e desapegos; e o inverno, frequentemente temido, torna-se símbolo dos períodos de silêncio, espera e crescimento oculto.
“A natureza conhece o ritmo e confia nele. Confia que a vida continua mesmo quando o crescimento não é visível”, afirmou. O frade destacou ainda que o mundo costuma celebrar as flores e os frutos, enquanto Deus cuida das raízes. “Talvez muitos de vocês tenham passado anos cultivando raízes de fé, de serviço, de comunidade e de amor incondicional em formas que o mundo jamais verá. Mas Deus vê”, disse aos participantes.
Nesse sentido, a Terra ensina mais do que lições sobre árvores, rios e animais. Ela ensina sobre a própria condição humana. Frei Michael chamou atenção para um dos trechos mais surpreendentes do Cântico das Criaturas: a inclusão da “irmã morte corporal” entre os membros da grande família da criação. O gesto continua provocando admiração mais de 800 anos depois.
“Muitas pessoas não gostam de falar sobre a morte. No entanto, Francisco a coloca dentro do círculo do pertencimento, dentro do círculo dos relacionamentos e da família”, explicou. Para o santo, a morte não era uma realidade separada do amor divino, mas parte do mistério da vida acolhida por Deus.
A partir dessa perspectiva, a espiritualidade franciscana convida a reconhecer que todas as etapas da existência possuem dignidade e significado. Assim como a natureza acolhe cada estação com confiança, também a vida humana é chamada a confiar nos processos, nas transformações e na presença constante de Deus, que continua agindo mesmo nos momentos de silêncio, fragilidade e passagem.
A partir dessa constatação, ele disse aos participantes para confiarem na ação de Deus mesmo nos momentos em que os frutos ainda não são visíveis. “Talvez este seja o convite deste dia: confiar no que Deus está fazendo debaixo da superfície; confiar na estação da vida em que estamos; confiar na sabedoria do descanso. A raiz cresce primeiro. E Deus nunca termina sua obra”, concluiu.
Fotos: Irmã Liliane Araújo, registradas em Allegany nos anos de 2025 e 2026, em que retratam diferentes estações do ano.

